A história dos hospitais é, antes de tudo, a história de como uma sociedade compreende o cuidado.
A arquitetura hospitalar sempre foi um reflexo direto de como a sociedade compreende saúde, técnica e cidade. Antes de ser apenas um suporte para equipamentos médicos, o hospital foi e continua sendo um dispositivo espacial de cuidado, humanização e cura; moldado por teorias científicas, políticas e soluções construtivas.
A trajetória do Hospital São Zacharias atravessa diferentes momentos desse pensamento e oferece um recorte preciso sobre a relação entre arquitetura, engenharia e saúde ao longo do século XX. Uma discussão especialmente atual diante dos desafios contemporâneos de retrofit hospitalar.
Quando a cidade era pensada como um sistema de saúde
No início do século XX, o Rio de Janeiro ainda era estruturado por uma geografia profundamente distinta da atual. No centro da cidade, o Morro do Castelo se destacava não apenas como um marco histórico da fundação do Rio, mas também como um suporte para usos residenciais, religiosos, institucionais e de saúde.

Em amarelo, antigo Morro do Castelo. FONTE: O Globo
À época, o pensamento médico era fortemente influenciado pela teoria dos miasmas, segundo a qual as doenças se propagavam pelo ar estagnado. Ventilação, insolação e circulação de ventos tornaram-se, portanto, parâmetros técnicos fundamentais para o desenho da cidade e dos edifícios.
Nesse contexto, o Morro do Castelo passou a ser interpretado como um entrave à salubridade urbana. A topografia elevada era vista como um bloqueio aos ventos marítimos, criando bolsões de ar considerados insalubres. A demolição do morro, iniciada em 1920, foi justificada pelas autoridades como uma grande operação de higiene urbana.
O próprio prefeito da época, Carlos Sampaio, afirmava que o Morro do Castelo era um dente cariado na linda boca da Baía de Guanabara.
O Primeiro São Zacharias: arquitetura como instrumento terapêutico
Instalado entre 1914 e 1922 no antigo convento dos jesuítas, no topo do Morro do Castelo, o primeiro Hospital São Zacharias foi concebido nos princípios do higienismo. Era um período anterior aos antibióticos, sem UTI neonatal, logo o hospital buscava suas forças no que havia de mais simples: ar e luz.

O primeiro Hospital São Zacharias. FONTE: Brasiliana Fotográfica
Deste modo, o edifício explorava estratégias ambientais hoje amplamente revisitadas:
- Implantação elevada, favorecendo a ventilação natural;
- Grandes enfermarias coletivas;
- Ventilação cruzada e aberturas generosas;
- Iluminação cruzada e aberturas generosas;
- Relação direta com o entorno, o silêncio e a paisagem.
Nesse modelo, ar e luz não eram apenas qualidades especiais, mas parte integrante da lógica e cura. Paradoxalmente, foi essa racionalidade que justificou sua demolição. O hospital funcionou por oito anos e desapareceu com o morro. Foi apagado em nome de uma modernização urbana que priorizava a abertura de espaços e a circulação.
Botafogo e a Reconstituição: continuidade e transição
Após a demolição do Morro do Castelo, a Santa Casa de Misericórdia foi indenizada pelo Estado e reconstruiu o Hospital São Zacharias em Botafogo, inaugurado em 1937.
A escolha do bairro respondia aos mesmos critérios ambientais que haviam orientado a implantação anterior: ventilação, proximidade do mar, arborização e menor adensamento urbano.

Avenida Lauro Sodré antes da construção, 1968. FONTE: Facebook
O novo edifício já refletia uma transição importante na arquitetura hospitalar. Embora ainda incorporasse princípios ambientais do pensamento higienista, começava a dialogar com novos paradigmas técnicos: evolução das estruturas, das instalações prediais, dos fluxos funcionais e da organização dos serviços de saúde.
Esse deslocamento revela uma característica central dos edifícios hospitalares: são estruturas em constante adaptação, diretamente impactadas por avanços científicos, normativos e tecnológicos.
Retrofit Hospitalar: entre desempenho técnico e memória
No contexto contemporâneo, os hospitais existentes enfrentam um desafio complexo. Atualizá-los para atender às normas técnicas, às demandas operacionais e à incorporação de novas tecnologias não é apenas um problema de engenharia ou arquitetura, mas também de leitura histórica e cultural.
O retrofit hospitalar envolve decisões críticas. Trata-se de um exercício de equilíbrio delicado. Cada intervenção técnica altera não somente o desempenho do edifício, mas também sua relação com a memória urbana e com o vínculo afetivo construído ao longo do tempo.
Arquitetura, Engenharia e Cuidado como Camadas Sobrepostas
O percurso do Hospital São Zacharias evidencia que a arquitetura hospitalar não pode ser compreendida isoladamente. Ela resulta da sobreposição de saberes: medicina, engenharia, urbanismo, política pública e cultura.
Para arquitetos e engenheiros que atuam no campo da saúde, esse caso reforça a necessidade de uma abordagem crítica e sensível. Essa dimensão simbólica e afetiva se manifesta, sobretudo, na forma como os ambientes são percebidos e vivenciados pelos usuários, tema este que abordamos em outro artigo em nosso blog.
Modernizar é indispensável. Inovar é inevitável. Mas preservar a história, mesmo que de forma reinterpretada, é parte essencial de um projeto responsável.
Projetar hospitais é projetar cuidado. E cuidado, por definição, exige técnica, consciência e memória.
Referências:
FUGAZZA, Kátia. Hospital São Zacharias: um reflexo da evolução dos espaços de saúde na cidade do Rio de Janeiro.
